Estudantes do curso de Engenharia Ambiental da USP em São Carlos comprovam a eficiência deste método para produção agrícola por meio de pesquisa científica

Estamos em 2019, e segundo dados do último relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), um terço da população do planeta ainda não possui acesso a NENHUM dos aspectos do saneamento básico, pelo qual se entende:

  1. Abastecimento de água potável
  2. Coleta e tratamento de efluentes/esgoto
  3. Manejo e destinação adequada de resíduos sólidos
  4. Manejo de águas pluviais
  5. Limpeza urbana
  6. Controle de pragas e agentes patogênicos

O mesmo relatório ainda afirma que 4,5 bilhões de pessoas no mundo não tem acesso a um saneamento básico seguro e pleno: 60% da população mundial! É um dado assombroso, tendo em vista as consequências sociais e humanas desta tragédia permanente vivida por bilhões de indivíduos. Segundo pesquisas da OMS, 1,7 milhão de crianças com menos de cinco anos de idade morrem anualmente por viverem em condições insalubres devido a fatores ambientais como poluição, falta de saneamento e uso de água imprópria para consumo. É um escândalo!

Essa tragédia não é fruto de um “simples” desafio técnico, mas deriva de uma escolha política consciente por parte de uma série de gestores e indivíduos com poder de decisão. E fica ainda mais explicita essa situação quando, segundo estimativa da FUNASA (2009), a cada real investido em saneamento no Brasil, economiza-se 4 na área da saúde.

A questão, como sempre, é dinheiro. A pergunta é: quem lucra com isso? E estejam seguros de que não é pouca gente.

A história do saneamento moderno é um exemplo emblemático disso. A opção pelas redes de esgotamento sanitário em larga escala que usam água como meio de transporte tem seu principal marco na Inglaterra, em meados do século XIX, especialmente em Londres, cujos habitantes enfrentaram inúmeros e graves problemas de saúde pública em decorrência da precariedade na destinação dos excrementos humanos gerados em uma cidade cada vez mais densa em termos populacionais, possuindo quase 3 milhões de habitantes em 1860. O verão de 1858 ficou conhecido como “O Grande Fedor”, quando a cidade tornou-se insuportável por seu mau-cheiro e pelas centenas de pessoas que morreram devido ao contato ou consumo de água contaminada do Rio Tâmisa, um verdadeiro esgoto a céu aberto.

ESQUINA DA HISTÓRIA: A SOLUÇÃO VENCEDORA.

Dry earth closet, patenteado em 1873 por Henry Moule

A solução saiu do engenheiro Joseph Bazalgette, e consistiu na construção de 133 quilômetros de galerias subterrâneas de esgoto e em um investimento de 3 milhões de libras esterlinas em obras autorizado pelo primeiro ministro Benjamin Disraeli. Dá pra entender quem ficou feliz, não? E isso tudo em um contexto em que um reverendo inglês chamado Henry Moule apresentava e provava a eficiência e o baixo-custo de um modelo de saneamento descentralizado que ele batizou ‘dry earth toilet’, ou banheiro seco de terra, mais simples e funcional em diversos aspectos. Fico pensando nessas ‘esquinas da história’ e como tudo poderia ser diferente se outras decisões tivessem sido tomadas. Mas sabemos que há muito tempo a prioridade vem sendo o lucro de alguns poucos, em detrimento do bem-estar da maioria, e nesta ocasião não foi diferente.

BANHEIROS SECOS

No entanto a ideia e a prática dos banheiros secos chegaram aos dias de hoje, e vem sendo retomadas por ecologistas, permacultores, e entusiastas de soluções ambientalmente adequadas de saneamento urbano e rural. Mas vários fatores (culturais, estruturais e técnicos) tem impedido a difusão em larga escala desta proposta, cujo princípio básico, apesar dos inúmeros modelos possíveis de banheiro seco, é utilizar materiais secos (especialmente serragem) para cobrir as fezes, afastando o mau-cheiro e os vetores, e compostar em um ambiente controlado estes resíduos, gerando um material nutricionalmente rico para a agricultura.

Neste link você pode acessar um pequeno relato do ambientalista Joaquim Moura quando de sua visita à sede da Associação Veracidade, em 2015, descrevendo o funcionamento de nosso banheiro.

Neste sentido, alunos do curso de engenharia ambiental da USP em São Carlos realizaram um interessantíssimo estudo intitulado “AVALIAÇÃO DA VIABILIDADE DE BANHEIROS SECOS E A EFETIVIDADE DO USO DE SEU COMPOSTO NO CULTIVO DE HORTALIÇAS”, em que analisaram amostras de 2 banheiros secos da cidade de São Carlos (entre eles o da Associação Veracidade) e compararam seus resultados e parâmetros com terra vegetal comercial. As conclusões são incríveis! Você pode acessar o trabalho na íntegra clicando no link acima, mas veja abaixo um resumo dos resultados do experimento onde foram utilizados os compostos do banheiro seco da Veracidade e de um banheiro do Assentamento Nova São Carlos, em duas diferentes proporções, e semeados alfaces. Ao final, foi analisado o crescimento das plantas e os nutrientes (nitrogênio e fósforo) dos diferentes compostos.

O resultado é incrível: o banheiro seco da Veracidade de longe produz o composto mais adequado para agricultura, gerando plantas muito maiores e mais saudáveis! O que era um resíduo sem uso torna-se uma importante fonte de nutrientes vegetais!

Foram semeados 15 amostras com 5 diferentes proporções de terra/composto, triplicadas.
Os alfaces plantados com composta da Veracidade cresceram muito mais!
O substrato da Veracidade apresenta a maior quantidade de matéria orgânica
Apresenta também a maior quantidade de fósforo
E a maior quantidade de nitrogênio
Todos apresentam incidência de Coliformes e E. Coli, inclusive a terra vegetal comprada em agropecuária convencional, com exceção do composto do assentamento que não apresenta E. Coli.

Por fim, tratando-se de temática tão importante, como dito acima, recomendamos a leitura na íntegra do citado estudo que comprova a viabilidade do uso do composto derivado de banheiros secos para fins de produção agrícola, e deixamos aqui um vídeo produzido pelos mesmos estudantes com um resumo da pesquisa:

O paradigma de saneamento precisa mudar, e certamente os banheiros secos podem ser uma excelente pista e alternativa neste sentido!

Quer conhecer um? É só vir visitar a sede da Associação Veracidade, em São Carlos! Mas vai ter que pelo menos deixar a sua contribuição no banheiro seco, hein? 😉

4 thoughts on “Banheiro seco: um “novo” paradigma para o saneamento com eficiência comprovada por alunos da USP”

    1. Dá sim! Você mora aonde? Tem que procurar o pessoal na região que trabalha com permacultura e saneamento ecológico para ver se prestam esse serviço ou se vendem esse produto!

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