Trata-se de uma experimentação cotidiana, uma observação permanente sobre a impermanência das formas. Habitamos a cidade; estamos localizados num bairro central de São Carlos. Não estamos de acordo com os rumos desse aglomerado urbano, seus lixos, seus excessos, e nossa posição frente ao barulho e poluição.

Por isso é preciso agir, transgredir, se deixar contaminar. Compomos resistências que apenas se realizam no plural, se configuram em rede. Ver(a)cidade é uma parte ao lado das partes, uma engrenagem propulsora, produtora de contatos e possibilidades, mas apenas mais outra delas – não acreditamos em totalidade. Somos um coletivo, uma matilha, um bando de seres que partilham de uma insatisfação latente, que estão dispostos a uma polimorfia de ações que visam desconstruir a alienação reinante. Buscamos de maneira horizontal recuperar uma autonomia frente a vida, desfazer as dicotomias trabalho/vida, natureza/cultura, indivíduo/sociedade; e que sabem que o que fazem é ao mesmo tempo político, estético, ambiental. O sucesso não nos interessa, o que nos importa é o processo. Queremos aprender a fazer as coisas, depender o mínimo possível da máquina capitalista e sua industria nefasta. Estamos engajados em edificar uma estética da existência responsável à suas contingencias, um viver simplesmente que reconhece que somos natureza ou não seremos, que somos sociais ou não seremos. Daí a urgência de se colocar vida-toda e não como mais um recorte, uma esfera apartada da vida: já transformamos o artista em pedreiro, como faremos para transformar o pedreiro em artista?

A cidade existe e na certa por isso mesmo somos responsáveis por suas catástrofes, seus erros, seus engodos. Temos que desfazer esse projeto insano, essa reunião purulenta de desigualdades e dejetos. Estamos inventando como fazê-lo, não há respostas prontas, mas perguntas pertinentes. Não queremos propor nada a ninguém; convencer é infrutífero, mas conviver é primordial. Somos de uma geração que encontra dificuldades em pensar alternativas a esse modo de produção que no entanto demonstra seus desgastes, que passa todos os dias por cima de existências, que concreta misérias e promove excessos. Justamente queremos começar com os excessos. Repartir os excedentes, movimentar o que sobra aqui e alí para levar a onde não há fartura. Remanejar as ilhas de luxo, embaralhar os nichos sociais que insistem em se cristalizar. Para tanto nos utilizamos de premissas da permacultura, como observação permanente da natureza, a qual fazemos parte. Pensar as coisas em suas múltiplas funções e se esquivar de tratar tudo como mercadoria, visando ao império do lucro, não objetificar pessoas, mas desobjetificar a nós mesmos – projeto visceral. Nos desviamos do rumo de certa permacultura elitista que cria vitrines ecológicas e cobra caro por isso como artigo de luxo. Queremos pensar a periferia, propostas de um desenvolvimento menos danoso, economicamente viável. Aprender com ela que a pouco tempo era área rural e hoje se encontra constantemente encurralada pelos centros que lhe enviam seus marginais, empurram suas feiuras, exércitos de reserva. Junto a ela transformar os centros, irradiar diferentes maneiras de ser urbano, deixar de sê-lo também.

Queremos nos ramificar: existir para além de nós mesmos, no entanto não buscamos de forma alguma o alcance massivo que a industria criou e faz crer necessário. Nada é necessário, o mínimo é suficiente. O que basta basta, aprendemos com o sábio chinês. Agimos em localidade, para a localidade, afinal a vida se dá assim, em ambientes, e hai que vivê-la com aqueles que te cirandam, que de fato nos atingem e atingimos. Combatemos, mas não com as mesmas armas. Largamos as armas, queremos dançar.

Escolhemos essa linguagem não a toa. Fugimos da obviedade que obsta o desenvolvimento artístico de nossas emanações políticas. Queremos povoar nosso dia-a-dia com novos saberes a respeito do que nos rodeia, uma sensibilidade aflorada para diversas linguagens e outras imagens de mundos possíveis. Não queremos escrever manuais, mas berrar cores

Sem nenhum ponto final – os efeitos nós experimentamos

Permacultura Popular UrbanaA Veracidade